quarta-feira, 17 de agosto de 2011

“Quem policia a policia?”1



Todos sabemos e não é novidade, o poder público já de algum tempo perdeu completamente o controle sobre a segurança pública e os processos sociais de violência contra a população. E quando falamos em violência, entenda-se não unicamente a violência física, mas também simbólica, além da violência praticada pelo próprio Estado.
Atualmente viver em grandes centros urbanos, como Curitiba, esta se constituindo sinônimo de sobreviver, não sabemos por onde transitar com segurança, e se sabemos , inclusive nos locais mais movimentados, mormente nos sentimos bastante desprotegidos. Mas inseguros com o quê? Apenas com a famosa e conhecida bandidagem? Mas o que esta contemplado, quando nos referidos a esta bandidagem?
O aclamado compositor e cantor, Chico Buarque de Holanda, celebrizou a canção Acorda Amor, com seu inigualável estilo, composição que retrata um pouco as agruras vividas pela população mais pobre e que particularmente detêm os chamados fenótipos negros, o grupo populacional enquadrado como “tipo padrão” ou “tipo suspeito”, com muita frequência. Na canção Acorda Amor, ele diz,
Acorda Amor,
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão2
Composição de Leonel Paiva/Julinho da Adelaide (Chico Buarque) 
 
Em muitos momentos, em que as forças de segurança, legitimadas pelo estado, são bandidos travestidos de autoridade, somos obrigados a apelar à canção e chamar o ladrão. Já que sistematicamente pessoas são abordadas por “autoridades” e tem seus direitos constitucionais e humanos totalmente vulgarizados. Meu irmão a pouco tempo e novamente foi vítima das chamadas “abordagens de rotina”. Estava transitando no bairro Boqueirão, a pouco havia saído de uma farmácia, quando a Policia Militar o abordou de maneira truculenta e totalmente injustificável. Vamos aos detalhes dos diálogos, - Mão na cabeça, você é usuário? Não senhor, não sou, sou trabalhador, sou do esporte. Você é traficante? Meu senhor, eu trabalho na Sanepar, esta aqui minha identificação.
Neste momento meu irmão já argumentava de maneira um pouco mais enfática. Foi quando um dos policiais, ao verificar que, na gíria deles, meu irmão estava “limpo”, retrucou, - você esta brincando comigo, é por isso que você leva na cabeça.
Como disse, esta não é a primeira e certamente não será a última vez que este fenômeno social, se processa com meu irmão de 28 anos. Não obstante ele se vista, na gíria popular, um pouco “largado”, ou seja, sem muitos cuidados, carrega consigo fenótipos negroides mais acentuados em relação aos outros irmãos. E tenho grande desconfiança se este também não seria uma das principais razões para as recorrentes abordagens policiais, já que no Brasil, a população negra é sistematicamente considerada suspeita pelo aparato policial.
Mas nossas autoridades sempre argumentam que este procedimento é rotina padrão, inclusive o que foi argumentado com meu irmão, era para segurança dele. Pergunto, após verificar que o procedimento padrão estava deslocado, não se aplicando ao cidadão em questão, por que razão colocações como esta, “você esta brincando comigo, é por isso que você sempre leva na cabeça.” O cidadão foi desrespeitado, não caberia, alguma postura de reparação ou desculpa? Sinceramente não compreendo. Em outro episódio similar, de abuso policial, meu irmão saía do trabalho, após um dia fatigante e foi novamente tomado como suspeito pela polícia, que o revistou, com arma em punho e vocabulário totalmente desrespeitoso. Depreendemos destas experiências, que o simples fato de andar normalmente na rua, sem pressa ou sem demonstrar qualquer receio, o consolidou como “tipo padrão” para os agentes policiais.
Cabe destaque, este constructo social, tipo padrão, é articulado no livro elaborada pela ONG de São Paulo, Frente 3 de Fevereiro, de nome, Zumbi Somos Nós, Cartografia do Racismo para o Jovem Urbano. O detalhamento do funcionamento social desta categoria, "tipo padrão", pode ser acessado no site www.frente3defevereiro.com.br.
Meu irmão continua sendo o tipo padrão da polícia e tampouco é um negro retinto, diria que esta mais para Afro-brasileiro ou Afro-descendente, imaginemos as situações enfrentadas pelos negros retintos de nosso país em seu cotidiano, diuturnamente. E continuo me questionando sobre os critérios da PM para meter o “ferro”, na sua cara e o humilhar, sem nenhum tipo de escrúpulo. Penso o quanto isto revolta um trabalhador, já pauperizado e fustigado pela realidade social cruel. E não consigo olvidar todos os casos em que a policia esta e esteve envolvida em ocorrências de corrupção, queima de arquivo entre outras formas de abuso de poder.
Recentemente uma senhora paulistana, muito corajosa devemos ressaltar, presenciou policiais militares, dando cabo de uma vida humana. Denunciou no ato o caso para o 190 e encarou os policiais assassinos, faca a face, que ao detectarem sua presença, de imediato tentaram justificar a ação. O que comentar do menino Juan, no Rio de Janeiro, baleado pela policia que ocultou seu corpo e posteriormente o desovou em um rio da Baixada Fluminense. Em Curitiba os eventos não são distintos, relatos de autoridades que escondem drogas e armas para incriminarem vítimas, simulam tiroteios, crivam de balas as próprias viaturas, para justificar e encobrir a chacina de adolescentes, são bastante corriqueiros.
A realidade, sinceramente é que não nos sentimos inseguros apenas pela violência da sociedade, atrelada ao tráfico de entorpecentes ou a desigualdade social. Quando nos damos conta de que os funcionários públicos, encarregados de trabalhar para manutenção da segurança e ordem, tem como único objetivo o locupletar-se financeiro, a sensação de insegurança e desemparo cresce em patamares exponenciais.
Ainda queremos crer que os agentes da segurança pública, não são integralmente corruptos, ainda queremos crer que 90%, ou mais, do corpo policial é honesto e trabalha para o bem estar geral da população. Mas, por vezes, esta crença empalidece diante de tantas e tão graves denúncias que desabonam toda esta categoria.
Em 3 de fevereiro de 2004, a policia paulista assassinou Flavio Sant' Anna, dentista negro, confundido com bandidos, morto sem esboçar qualquer reação. A Frente 3 de Fevereiro foi criada com a intenção de marcar a data do covarde assassinato de Flávio, como mote de grande relevância, para mobilização dos múltiplos segmentos sociais, contra os episódios dramáticos de minoramento da cidadania, decorrentes de violência militar. As denúncias sobre os recorrentes abusos policiais, devem ser constantes. Fica a frase que se tornou música, para reflexão, “Quem policia a policia?


1. Frase retirada do site frente3defevereiro.com.br, e elaborada pela mesa ONG.
2. Composição de Leonel Paiva/Julinho da Adelaide (Chico Buarque)

3 comentários:

  1. Sinto muito pelo que seu irmão passou, com certeza não foi o primeiro e nem será o último a sofrer nas mãos de agentes policiais. Acredito que para mudar esta situação os policiais deveriam ter em seu treinamento técnicas de abordagem e conduta para com a população, de forma que mesmo em uma abordagem de rotina, o cidadão comum não se sinta humilhado e tolhido de seus direitos. E também meios de vigiar e punir estas práticas "padrões". O certo é: Respeito é bom e todo mundo gosta.

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  3. Polícia despreparada (mal paga e corrupta)nivela a todos por baixo, com fortes traços de discriminação racial e social, estes são infelizmente atributos dos agentes que teoricamente deveriam nos servir e proteger.

    Esta humilhante situação por que passei me faz lembrar os inúmreros acordos espúrios, que esta mesma polícia firma com os "bandidões", e numa tentativa falida de demonstrar serviço para a população, realiza estes tipos de procedimentos que geralmente são improfícuos, rechaçando e redicularizando cidadãos de bem. Bem sabemos que os mega-bandidos, os de colarinho branco ou os supertraficantes, etc., os caras do esquema forte são blindados pelo próprio sistema e muitas vezes pela própria polícia.

    Cabe ressaltar, os indivíduos da infeliz abordagem por mim sofrida, são fruto desta mesma sociedade segregacionista e atroz na qual estamos inseridos, é preciso uma evolução de consciência do povo para a consquente evolução de nossas instituições.

    Cyrano.

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